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“Aqueles que esperam ver uma revolução social ‘pura’ nunca viverão para vê-la. Essas pessoas prestam um fraco serviço à revolução ao não compreender o que é uma revolução”. (Lenine) “Aqueles que esperam ver uma revolução social ‘pura’ nunca viverão para vê-la. Essas pessoas prestam um fraco serviço à revolução ao não compreender o que é uma revolução”. (Lenine)

Há marxistas de toda espécie: alguns lêem muito; outros, nem tanto. Alguns se esforçam por penetrar na essência do método marxista, estudam cuidadosamente a dialética, enquanto que outros simplesmente permanecem na superfície, limitam-se a um tipo de determinismo econômico vulgar que poderia ser útil para a agitação mas que realmente é estranho ao marxismo.

Ao ler os escritos deste tipo de “marxismo” sempre se tem a impressão de entrar no sótão escuro de uma biblioteca que ficou fechado durante muitos anos. Está cheio de pedaços de conhecimento sem assimilar, sem ar, poeirentos e estéreis. Trata-se de um marxismo despido de dialética, isto é, despojado de seu espírito revolucionário. Este tipo de “marxismo” é, essencialmente, bastante compatível com o reformismo e com a passividade, uma vez que, apesar de sua terminologia radical, nunca abandona a poltrona e os chinelos.

Este desvio é particularmente comum na Grã Bretanha e conta com uma linhagem que remonta a Hyndeman. De um lado, reflete a tradição britânica do empirismo estreito e a aversão às amplas generalizações teóricas; de outro, também é fruto da pressão das idéias reformistas e da rotina do movimento operário que nunca é capaz de ver além do bosque.

Um revolucionário deve “sentir” o movimento das massas e deve ter a revolução na alma. Em contraste, os estudiosos pedantes vêem o processo histórico como uma questão de “forças objetivas” que determinam tudo por antecipação. Este tipo de pessoas não são revolucionárias e sim observadores eternos cujo ponto de vista tem mais em comum com a noção de predestinação calvinista do que com a dialética revolucionária do marxismo.

A idéia da predestinação, durante os séculos XVI e XVII, desempenhou um papel progressista nas primeiras etapas da revolução burguesa na Holanda e na Inglaterra, mas, hoje em dia, encontra-se totalmente superada. A dialética marxista deixa muita margem de manobra ao papel criativo dos homens e das mulheres no processo histórico. Mas também explica que os homens e as mulheres nunca estão completamente libertos das circunstâncias objetivas do período histórico em que vivem.

Um revolucionário deve ter uma compreensão do método dialético, que represente seu ponto de partida não a partir de definições abstratas ou axiomas e sim da realidade viva, com toda sua concretitude, riqueza e contradições. Ele ou ela deve abordar o movimento de massas tal como é, como se desenvolveu historicamente e lutar com todos os meios a sua disposição para entrar em contato com ele, estabelecer um diálogo com ele e fertilizá-lo com as idéias do marxismo.

Um revolucionário que não está disposto a seguir as massas, através desse processo contraditório, e que, em seu lugar, tenta elogiá-las à margem do movimento, não será absolutamente um revolucionário, será somente um lamentável formalista. Uma atitude mecânica e doutrinária com respeito ao movimento de massas afasta qualquer possibilidade de se influir nele.

O Fator Subjetivo

O marxismo nunca negou o papel do indivíduo na história, e os indivíduos ou grupos de indivíduos podem desempenhar um papel absolutamente decisivo em determinadas conjunturas do processo histórico. Marx explicou – e nisto tinha absoluta razão – que, em última instância, a viabilidade de um sistema sócio-econômico determinado depende de sua capacidade de desenvolver as forças produtivas. A crise geral do capitalismo mundial, no momento atual, reflete fundamentalmente a incapacidade do capitalismo de desenvolver as forças produtivas no mesmo nível em que o fez no passado.

Este fato inegável proporciona o amplo contexto histórico em que se está desenvolvendo o grande drama da política mundial. Determina, em termos absolutos, os processos gerais e também seus limites. Mas, dentro destes processos gerais, pode haver todos os tipos de encruzilhadas, fluxos e refluxos, onde o caráter dos indivíduos pode jogar, e o faz, um papel decisivo. Na realidade, a debilidade do fator subjetivo em escala mundial está tendo um efeito decisivo, atrasando e distorcendo o movimento no rumo da revolução socialista.

O fator mais importante na situação atual é a ausência, em escala mundial, de uma direção marxista forte e com autoridade. A tendência do genuíno marxismo retrocedeu décadas e atualmente representa uma pequena minoria. Por enquanto, não pode levar as massas à vitória. Mas os problemas das massas são atrozes. Não podem esperar até que estejamos preparados para dirigi-las. As massas tentarão por todos os meios mudar a sociedade; lutarão por encontrar uma escapatória do beco sem saída. Isto é particularmente correto nos países ex-coloniais da África, Ásia e América Latina, onde, sobre bases capitalistas, a sociedade não tem nenhuma possibilidade de avançar.

Na ausência de uma tendência marxista de massas é possível o surgimento de todos os tipos de variantes peculiares – na verdade, são inevitáveis. Para compreender a natureza destes acontecimentos e diferenciar, em cada etapa, o que é progressista e o que é revolucionário, é necessário ter uma abordagem criativa.

Para uma mentalidade sectária, a revolução deve seguir o seguinte esquema pré-estabelecido: tem que ser dirigida por um partido marxista. Não vamos, agora, discutir sobre a importância vital da direção e do partido revolucionário na revolução. Mas, para construir este partido, é necessário fazer uma avaliação realista da etapa alcançada pelo movimento e de nosso papel dentro dele. Mais tarde regressaremos a este ponto.

O problema da abordagem formalista e mecanicista é que não utiliza os processos vivos e sim fórmulas e definições abstratas e normas universais. Isto é, é idealista e não materialista, é metafísica e não dialética. Estabelece a norma ideal do que deveria ser uma revolução, afastando sistematicamente qualquer coisa que não se atenha a esta norma. Na mente de um idealista, isto é perfeito. Mas a perfeição ideal freqüentemente entra em choque com a realidade, como já sabemos desde Platão.

Para os objetivos de uma definição, todos sabemos o que é um ser humano: é masculino ou feminino, tem dois olhos, duas pernas e, assim, sucessivamente. Mas, na vida real, alguns humanos nascem com um só olho ou perna, ou com nenhum olho ou perna, e, inclusive, o sexo de alguns humanos não é determinável com segurança. Na realidade, na vida cotidiana e na natureza, é normal encontrar-se com coisas que saem das normas e devemos aprender a conviver com elas, porque, se não o fizermos, seremos dominados pela mistificação e pelo desconforto.

O êxito da revolução estaria realmente garantido se existisse um partido marxista de massas que pudesse proporcionar a direção necessária às camadas dirigentes da classe e armá-las com um programa político. Mas a construção deste partido não se pode fazer por decreto. A vanguarda revolucionária somente pode ganhar a maioria se se submeter à prova dos acontecimentos e à aprovação das massas. Nunca se pode conquistar esta posição elogiando as massas à margem do movimento. E, antes de que possamos chegar às massas, primeiro é necessário compreender a natureza de seu movimento, a etapa em que se encontra, as diferentes tendências (contraditórias) que existem dentro dele e em que direção está se movendo. Ou seja, é imprescindível uma abordagem dialética.

A primeira lei da dialética é a objetividade absoluta: quando nos acercamos a um fenômeno determinado não devemos partir de idéias ou definições pré-concebidas, e sim de um exame cuidadoso dos fatos, não dos exemplos ou das digressões, e sim do fato em si mesmo. Se queremos compreender os acontecimentos da Venezuela, o papel dos movimentos e dos indivíduos nestes acontecimentos, é necessário partir dos próprios acontecimentos. Uma definição no sentido dialético deve partir de um exame cuidadoso dos fatos e dos processos, não com imposições de fora.

Este foi o método de Trotsky. No prefácio de História da Revolução Russa, Trotsky escreve o seguinte:

“A história da revolução, como toda história, deve, antes de tudo, relatar os fatos e seu desenvolvimento. Mas isto não basta. É necessário que do relato se depreenda com clareza porque as coisas sucederam desse modo e não de outro. Os eventos históricos não podem ser considerados como um encadeamento de aventuras ocorridas ao azar, nem podem ser encadeados no fio de uma moral pré-concebida, e sim devem ser submetidos ao critério das leis que os governam. O autor do presente livro entende que sua missão consiste precisamente em trazer à luz essas leis”. (Leão Trotsky, História da Revolução Russa).

As linhas anteriores representam um exemplo excelente do método de análise dialético. Em contraste, os pensadores formalistas não se dão ao trabalho de fazer um estudo cuidadoso dos fatos e dos processos. Não se dão ao trabalho de descobrir as leis do movimento de uma revolução determinada, porque já sabem (ou imaginam saber) as leis da revolução em geral. Assim previamente armados, não necessitam gastar seu tempo estudando os fatos. Simplesmente aplicam suas idéias e definições pré-concebidas aos fatos, como um químico aplica um papel tornassol a um fluido. Se o papel se torna vermelho, estamos diante de um ácido; se se torna azul, temos um álcali.

Este método é simples – um simples jogo de crianças, na realidade, e, portanto, muito adequado para as crianças. Armado com um conhecimento tão poderoso, o formalista pode decidir antecipadamente se caracteriza os acontecimentos na Venezuela (ou em qualquer outro país do globo terrestre) como uma revolução ou não. Desde o cume do Olimpo, negam-se a dar um certificado de nascimento à revolução venezuelana. Para infelicidade deles, a revolução não sabe desta excomunhão e, inclusive, não lhe dá a menor atenção.

Que é uma Revolução?

A debilidade da posição das seitas com relação à Venezuela (no que diz respeito ao que se deram ao trabalho de observar) é que se baseiam em idéias pré-concebidas, por exemplo, como “deveria ser” a revolução, enquanto que, ao mesmo tempo, se evidencia sua completa ignorância do que é uma revolução.

Que é uma revolução? Esta clara pergunta raramente é feita. Mas, a menos que a façamos e a respondamos, nunca estaremos em posição de determinar o que está acontecendo na Venezuela, nem em nenhuma outra parte. Uma revolução, como explica Trotsky na História da Revolução Russa, é uma situação em que as massas começam a tomar o destino em suas próprias mãos. Este é o caso da Venezuela, agora. O despertar das massas e sua participação ativa na política são as características mais decisivas da revolução venezuelana e o segredo de seu êxito.

No mesmo prefácio, citado anteriormente, Leão Trotsky – que, afinal de contas, conhecia umas quantas coisas em matéria de revoluções – responde da seguinte forma:

“O traço característico mais indiscutível das revoluções é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos. Em tempos normais, o Estado, seja ele monárquico ou democrático, paira por cima da nação; a história fica a cargo dos especialistas neste ofício: os monarcas, os ministros, os burocratas, os parlamentares, os jornalistas. Mas, nos momentos decisivos, quando a ordem estabelecida se torna insuportável para as massas, estas rompem as barreiras que as separam da cena política, derrubam seus representantes tradicionais e, com sua intervenção, criam um ponto de partida para o novo regime. Deixemos para os moralistas julgar se isto é bom ou mau. Para nós, é suficiente apreciar os fatos tal como surgem de seu desenvolvimento objetivo. A história das revoluções é, para nós, acima de tudo, a história da irrupção violenta das massas no governo de seus próprios destinos”. (Ibid. O grifo é meu).

Em períodos normais, as massas não participam na política. As condições de vida sob o capitalismo colocam barreiras intransponíveis em seu caminho: longas horas de trabalho, cansaço físico e mental etc. Normalmente, estas pessoas permitem-se deixar com outros as decisões que afetam suas vidas. Sem embargo, em determinados momentos críticos, as massas irrompem no cenário da história, tomam sua vida e seu destino em suas mãos e passam de agentes passivos a protagonistas do processo histórico. Precisa-se ser particularmente cego e obtuso para não se ver que esta é precisamente a situação que se está produzindo na Venezuela. Nos anos recentes, especialmente desde a tentativa de golpe de estado em abril de 2002, milhões de trabalhadores e camponeses começaram a mover-se, a lutar para mudar a sociedade. Se isto não é uma revolução, então nunca mais a veremos. Somente o sectário mais intransigente não compreenderá isto.

É necessário entender que as massas, seja na Venezuela ou em qualquer outro país, só aprendem gradualmente, através da experiência. A classe trabalhadora tem que passar pela experiência da revolução e da crise social para distinguir entre as diferentes tendências, programas e dirigentes. Aprende através do método de aproximações sucessivas. Como explica Trotsky:

“As diferentes etapas do processo revolucionário, consolidadas pela substituição de uns partidos por outros cada vez mais extremistas, assinalam a pressão crescente das massas em direção à esquerda, até que o impulso adquirido pelo movimento tropeça com obstáculos objetivos. Então, começa a reação: decepção de certos setores da classe revolucionária, difusão da indiferença e conseqüente consolidação das posições adquiridas pelas forças contra-revolucionárias. Tal é, pelo menos, o esquema das revoluções tradicionais”. (Ibid.)

E, ainda, acrescenta:

“Só estudando o impacto dos processos políticos sobre as próprias massas alcança-se a compreensão do papel dos partidos e dos caudilhos, que, de modo algum, queremos negar. São um elemento, se não independente, muito importante, deste processo. Sem uma organização dirigente, a energia das massas se dissiparia, como se dissipa o vapor não contido numa caldeira. Mas, seja como for, o que impulsiona o movimento não é a caldeira nem o pistão, mas o vapor”. (Ibid.)

Estas observações refletem exatamente a situação da Venezuela, onde o movimento a partir de baixo das massas constitui a principal força motriz da revolução. É impossível compreender o processo limitando-se somente a uma análise dos dirigentes, de suas origens de classe, de suas declarações e programas. Isto é como a espuma das ondas do oceano, que são só o reflexo superficial das correntes profundas que existem sob a superfície.

As Massas e Chávez

“A dinâmica dos acontecimentos revolucionários acha-se diretamente impulsionada pelas rápidas, tensas e violentas mudanças que sofre a psicologia das classes formadas antes da revolução”. (Ibid.)

Na ausência de um partido marxista revolucionário de massas, as forças da revolução congregaram-se em torno de Chávez e do Movimento Bolivariano. Hugo Chávez é o homem no centro da tempestade. Não importa o que se pense sobre este homem; ele rompeu a represa e abriu as comportas. Ele sozinho se atreveu a enfrentar o poder da oligarquia e a desafiar o poderoso imperialismo norte-americano. Inclusive seus inimigos declarados e seus críticos não podem negar que ele demonstrou uma colossal coragem. Dando um exemplo de coragem, conjurou tremendas forças que durante gerações estiveram latentes nas profundezas da sociedade venezuelana. Este é um fato de tremenda importância.

Pela primeira vez em quase duzentos anos de história da Venezuela, as massas sentem que o governo está nas mãos de pessoas que desejam defender seus interesses. No passado, o governo era sempre um poder alheio contra as massas. As massas não queriam o regresso dos velhos partidos corruptos. As massas, os moradores de choupanas dos bairros pobres, os desempregados, os trabalhadores, os camponeses, os índios, os negros, saíram de sua apatia e se colocaram de pé. Descobriram que a vida tem um novo significado, uma nova esperança. Da noite para o dia, converteram-se em chavistas, mesmo que não compreendam muito bem o que significa isto.

Talvez as massas tenham somente uma idéia muito vaga do que realmente querem, mas têm com certeza uma idéia muito clara do que não querem. Não querem o regresso da velha ordem, dos antigos partidos e dirigentes burgueses. Experimentaram o que significa ser livres e não desejam regressar à velha escravidão. Com cada fibra de seu corpo anseiam por um mudança fundamental de suas condições de vida. Para elas, é isto o que significa o chavismo. E este grande sonho de mudança resume-se, em suas mentes, em um só homem: Hugo Chávez.

Muitas pessoas se surpreenderam com o fervor – um fervor quase religioso – com que as massas olham para o seu presidente. Estão dispostas a sofrer fome e pobreza, sacrificar todas as suas posses, arriscar a sua vida (como fizeram a dois anos) por ele. Isto representa um poder imenso e explica porque Chávez foi capaz de derrotar todas as tentativas de derrubá-lo. O verdadeiro segredo de seu êxito não está dentro dele mesmo e sim das massas, e é a força das massas o que determina todo o rumo da revolução e também é sua principal força motriz.

Os inimigos direitistas de Chávez não podem compreender a razão disto. Não podem entendê-lo porque são organicamente incapazes de compreender a dinâmica da própria revolução. A classe dominante e suas prostitutas intelectuais nunca aceitam que as massas tenham mente e personalidade próprias, que sejam uma força tremendamente criativa, capaz não somente de mudar a sociedade, como também de administrá-la. Nunca podem admitir tal coisa, porque, se o fazem, admitiriam sua própria bancarrota e deixariam claro que não são um agente social necessário e indispensável, dotado de um direito divino para governar. Ficaria claro que são uma classe parasitária e supérflua, um obstáculo reacionário ao progresso.

Os Sectários Incapazes de Compreender

Mas não somente os inimigos burgueses da revolução mostram uma absoluta incapacidade de compreender a revolução venezuelana. Muitos na esquerda (inclusive alguns que se auto-denominam marxistas) mostraram uma incapacidade semelhante para entender o que está ocorrendo. Depois de se autoproclamarem dirigentes da classe trabalhadora, ante o espetáculo do apoio entusiasta das massas a Chávez, estão desconcertados. Queixam-se pelas esquinas, murmurando algo sobre o “populismo”, mas demonstram uma absoluta incapacidade de se conectarem ao movimento real das massas. Esta é a principal característica dos sectários em todos os lugares.

O que não compreenderam nenhum destas damas e cavalheiros é a relação dialética entre Chávez e as massas. Eles têm em comum uma abordagem formalista e mecanicista à revolução. Não a vêem como um processo vivo, cheio de contradições e irregularidades. Isso não se ajusta a seus esquemas pré-concebidos de como deveria ser uma revolução; por isso, lhe dão as costas com desprezo. Comportam-se como os primeiros europeus que viram uma girafa e exclamaram: “Isto não existe”.

Desgraçadamente, para nossos amigos formalistas, a revolução não se desenvolve suavemente, não se produz de acordo com planos pré-concebidos, não é como um ensaio de orquestra que segue a batuta do maestro. A revolução segue suas próprias regras e obedece a suas próprias leis internas, que não se encontram em nenhum livro de culinária revolucionária, mas que estão certamente mergulhadas nas contradições da sociedade e que, gradualmente, se elaboram através da ação coletiva das próprias massas que não aprendem nos livros de texto e sim através da experiência da luta e por um difícil processo de experimentos e erros.

“Mas Chávez é um burguês”, protestam. Estas pessoas sempre pensam em termos simplórios: branco ou negro, sim ou não, burguês ou proletário. O velho Engels tinha em mente este tipo de mentalidade formalista quando citou as seguintes palavras da Bíblia: “Que todo o teu entendimento seja: sim, sim ou não, não, porque qualquer coisa que seja mais do que isto vem do diabo”. Estas exigências de uma definição nítida parecem, à primeira vista, ser razoáveis e sábias. Mas, não é possível em todas as circunstâncias exigir definições nítidas.

Inclusive como definição sociológica, a caracterização anterior de Chávez é incorreta. Os antecedentes sociais de Hugo Chávez não são burgueses e sim de classe média. Ele se caracteriza a si mesmo como camponês. Sem embargo, isto não esgota a questão desde um ponto de vista marxista. A classe média não é homogênea. Nas suas camadas superiores, os advogados ricos, os médicos e professores universitários, estão mais próximos da burguesia e a servem. Nas suas camadas mais baixas, os pequenos comerciantes, os pequenos camponeses, as fileiras mais baixas dos intelectuais, estão mais próximos da classe trabalhadora e, em determinadas circunstâncias, podem por-se ao lado da revolução socialista.

Sem embargo, as origens de classe dos dirigentes não são conclusivas na hora de decidir sobre a natureza de classe de um partido ou movimento particular. O que, em última instância, determina a natureza de classe de um movimento político é o seu programa, sua política e sua base de classe. Podemos descrever, em termos gerais, o programa e a política do Movimento Bolivariano como o de uma democracia pequeno-burguesa revolucionária. Como tal, não vai mais além dos limites de uma democracia burguesa muito avançada. A revolução tem levado a cabo um programa ambíguo de reformas no interesse das massas, mas não aboliu o capitalismo. Isto constitui sua principal debilidade e a maior ameaça para o seu futuro.

A Questão do Estado

“Mas o Estado ainda é burguês!”, insistem nossos amigos formalistas. Enquanto a oligarquia não tiver sido expropriada, enquanto uma grande parte do poder econômico encontrar-se em suas mãos, então a Venezuela é certamente capitalista e devemos definir a natureza de classe do Estado de acordo com isso. Além disso, uma grande parte da velha burocracia ainda permanece em seu lugar, a magistratura é a mesma de antes, a polícia metropolitana atua como um estado dentro do estado, a lealdade de setores dos oficiais de classe média não está garantida. Tudo isso significa que ainda não se produziu uma mudança qualitativa e, portanto, a situação atual pode mudar radicalmente. Todavia, tal possibilidade não poderá ocorrer sem uma luta feroz e uma guerra civil.

Contudo, a definição geral do estado como burguês não nos diz nada sobre a verdadeira correlação de forças ou sobre a realidade concreta do estado, ou sobre a forma em que se está desenvolvendo a situação. Na realidade, o estado na Venezuela já não está controlado pela burguesia. Por essa razão, a oligarquia está obrigada a recorrer a métodos ilegais e extraparlamentares, para recuperar o controle. A maioria das forças armadas, inclusive um setor importante dos oficiais, apóia a revolução. Tal fato cria enormes problemas para a contra-revolução e produz condições potencialmente favoráveis para aqueles que desejam levar a revolução até o fim.

No início deste artigo, fizemos a seguinte pergunta: que é uma revolução? Também é necessário perguntar: que é o estado? Esta pergunta já foi respondida faz muito tempo por Lenine (acompanhando Engels), quando disse que o estado, em última instância, são grupos de homens armados, o exército, a polícia etc. Em períodos normais, o estado encontra-se controlado pela classe dominante. Mas, em períodos excepcionais, quando a luta de classes alcança sua maior intensidade, o estado pode adquirir um importante grau de independência, elevando-se por cima da sociedade. Esta é a situação atual na Venezuela.

O argumento final dos sectários faz referência às forças armadas. “Não devemos fazer nada com os oficiais do exército”. Este não é, realmente, um argumento, mas um preconceito estúpido. A idéia de que não é possível ganhar o exército para a revolução é absurda. Se isso fosse certo, não se poderia fazer nenhuma revolução na história. O exército está formado por homens e mulheres uniformizados que podem ser influenciados pelos acontecimentos da sociedade. (Ter de lembrar uma coisa tão clara é até embaraçoso, mas parece que hoje em dia não se pode dar nada por garantido).

Em cada grande revolução da história, o exército viu-se afetado pelo movimento das massas. Ele tende a se dividir em linhas de classe. Se não ocorresse dessa maneira a revolução em geral seria impossível. A fermentação revolucionária afeta não somente aos soldados e aos suboficiais, como também a parcelas dos oficiais. Em circunstâncias especialmente favoráveis, uma grande parte dos oficiais pode-se ver afetada e negar-se a lutar pelo velho regime ou, inclusive, a passar-se para o lado da revolução, como ocorreu com Tukatchevski, que era um oficial czarista.

Além disso, em mais de uma ocasião aconteceu que um movimento revolucionário tenha começado por cima, com a revolta de um setor dos oficiais, e que depois se estendeu às massas. Isto ocorre, particularmente, quando o velho regime evidencia-se como completamente corrupto e em bancarrota. A história da Espanha, no século XIX, está cheia deste tipo de acontecimentos, conhecidos como pronunciamentos, que freqüentemente abriram as comportas da revolução. Também há exemplos mais recentes do mesmo processo.

A Revolução Portuguesa

A idéia de que a revolução bolivariana é absolutamente original não é correta. É claro que tem peculiaridades próprias, mas está longe de ser original. Na realidade, cada revolução tem características que são comuns a todas as revoluções. Se não fosse assim, seria impossível aprender algo útil do estudo das revoluções passadas, mas este não é o caso. Há pouco mais de trinta anos, em Portugal, vimos um processo extremamente semelhante ao da Venezuela.

Com mais de meio século de domínio fascista, a população de Portugal derrubou a odiada ditadura de Caetano e empreendeu o caminho da revolução. Como começou? Começou por um golpe conduzido por oficiais de esquerda do exército. Esta situação está completamente em contradição com a situação normal, onde os oficiais do exército quase sempre desempenham um papel contra-revolucionário. Neste caso, ocorreu o contrário. Em 1975, Ted Grant escrevia o seguinte:

“A verdadeira peculiaridade da Revolução Portuguesa, em comparação com qualquer outra revolução do passado, é o envolvimento da massa de oficiais de baixa e média patentes – inclusive alguns generais e almirantes – na revolução.

Se o poder do Estado, como explicaram Marx e Lenine, reduz-se ao controle de grupos de homens armados, então a decadência do regime português revelava-se completamente desnuda. A burguesia jogou tudo na carta da repressão feroz e totalitária das massas. Mais de duas gerações sofreram suas conseqüências. A burguesia perdeu todo o apoio da classe média e, por contágio, inclusive de grande parte da casta de oficiais. A guerra sem sentido na África jogou um papel importante, mas não é a única explicação. O massacre, ainda mais insano, perpetrado durante a guerra de 1914-18, não fez com que a casta de oficiais (russos) abandonasse, em sua maioria, o czarismo. Não duvidaram em passar-se para o lado da contra-revolução e em apoiar as guerras de intervenção contra seu próprio país.

Em 1918, a revolução alemã encontrou-se com a oposição do grosso da oficialidade. A contra-revolução de Hitler contou com o apoio da imensa maioria dos oficiais.

Na revolução espanhola de 1931-37, 99 por cento dos oficiais passaram-se para o bando de Franco. Em 1926, a imensa maioria da casta militar apoiou Salazar.

No pêndulo político, tem ocorrido um giro enorme à esquerda. Durante três décadas, a pequena burguesia foi girando mais à esquerda – como demonstra o movimento estudantil. Em Portugal, o beco sem saída do capitalismo e o ódio contra as camarilhas do capital monopolista, que cunharam seu dinheiro com o sangue e o sofrimento da população e dos soldados, refletiram-se no isolamento dos círculos mais ricos. Eles apoiaram e se beneficiaram, até o último momento, do regime totalitário. O ódio contra esses parasitas estendeu-se a setores da oficialidade. Esta é uma indicação de que o capitalismo esgotou sua missão histórica e se converteu em um obstáculo cada vez maior para a produção. Em Portugal, como o demonstra o desafortunado episódio de Spínola, inclusive o Estado Maior estava dividido”.

Estas linhas poderiam ter sido escritas hoje – com relação à revolução venezuelana. A tendência marxista explicou este fenômeno há décadas, mas continua sendo um livro fechado para todos os sectários e formalistas. Portanto, são incapazes de entender a revolução venezuelana e ainda menos de intervir nela. Nada enxergam, porque o seu método formalista os impede de ver o que está ocorrendo diante de seus narizes. Constantemente fazem referência a definições e citações confeccionadas pelos clássicos marxistas (“devemos esmagar o velho estado” etc.), que, em suas mãos, deixaram de ser declarações científicas para se tornarem clichês vazios ou sortilégios religiosos. Em lugar de ajudar-nos a compreender o processo real, atuam como uma barreira para o entendimento.

Em seu documento de 1975, sobre a Revolução Portuguesa, Ted Grant escrevia o seguinte:

“Marx registrou que, nos escritos aparentemente pesados e obscuros de Hegel, podia-se ver a revolução em determinada etapa da história. Agora o gênio inventivo da história nos apresentou o espetáculo da revolução movendo-se no veículo dos generais e almirantes militares! Isto aconteceu porque o capitalismo esgotou-se em Portugal – um país semicolonial e semi-imperialista – que, sob o capitalismo, não é capaz de avançar depois da perda do império. Ao mesmo tempo, o caminho da ditadura militar burguesa aberta ficou totalmente desacreditado, inclusive entre setores da casta militar, como resultado dos cinquenta anos de experiência da ditadura.

Mas, a razão principal para o enorme papel dos militares tem sido a paralisia da organizações trabalhadoras, devida a ausência de um genuíno partido e direção marxistas. Na realidade, desde o início da revolução – o poder real tem estado nas mãos dos trabalhadores e dos soldados. O MFA preencheu o vazio provocado pelo fracasso da direção das organizações do PSP e do PCP”.

A natureza abomina o vazio. Ocorre o mesmo na sociedade e na política. Na ausência de um partido revolucionário de massas, outras tendências podem encher o vazio político em condições concretas determinadas. Mas, uma vez que os oficiais portugueses iniciaram o processo, quando se abriram as comportas, as massas e a classe trabalhadora os ultrapassaram e puseram o seu selo na revolução. Em Portugal, existiam todas as condições para uma revolução pacífica, especialmente depois da derrota do golpe reacionário do general Spínola, em março. Foi um golpe muito parecido com o de 11 de abril na Venezuela e, como explica Ted, terminou da mesma forma:

“Quando se produziram as manifestações de massas dos trabalhadores, as forças do contra-golpe desvaneceram. Os paraquedistas e os comandos sempre são a força mais conservadora do exército, formada habitualmente pelos indivíduos mais aventureiros e selvagens da população. Normalmente, é uma força de elite das tropas de choque, os mais confiáveis e a última reserva especializada em esmagar, como os cossacos na Rússia. Mas os paraquedistas asseguraram aos manifestantes que eles ‘não eram fascistas’. Confraternizaram com os trabalhadores e com as tropas do Regimento de Artilharia. Inclusive, alguns entregaram seus rifles aos manifestantes como prova de boa fé.

Poucas horas depois do golpe, foi tomada a base aérea. Spínola e muitos outros da camarilha de oficiais fugiram para a Espanha. O golpe fracassou. O que se podia reconhecer imediatamente. Talvez tenha sido a tentativa de contra-revolução mais cômica e absurda da história.Mas foi um fiasco precisamente porque a atmosfera ardente da revolução afetou não somente aos trabalhadores e aos camponeses, mas praticamente a toda a base das forças armadas. Não havia um só regimento em todo Portugal que pudesse ser utilizado com propósitos contra-revolucionários”.

Novamente, pode-se aplicar a mesma análise à Venezuela de dois anos atrás. Só temos de trocar os nomes. Como em Portugal, teria sido possível a transformação pacífica da sociedade depois do colapso do golpe. Mas, isto não se fez e se perdeu uma oportunidade muito favorável. Este fato, por si mesmo, demonstra a necessidade de uma direção revolucionária consistente com uma estratégia e linha claras. Esses erros serão pagos no futuro e a fatura será muito cara.

Nossos amigos sectários gritarão triunfalmente: “Isto demonstra que não podemos confiar nos oficiais!”. No entanto, não é questão de confiança. Esta é uma categoria moral e não científica. O que é decisivo não é o caráter moral dos dirigentes, e sim o programa e a política. Muitos dos oficiais portugueses eram homens honrados, que se colocaram sinceramente do lado das massas. Muitos deles, inclusive, queriam concluir uma transformação social profunda em Portugal, mas não sabiam como fazê-lo.

A verdadeira responsabilidade pelo fracasso da Revolução Portuguesa encontra-se, não no setor de esquerda dos oficiais do exército, e sim na política reformista dos dirigentes dos partidos socialista e comunista que se interpuseram e fizeram naufragar a revolução. Além disso, devemos acrescentar que as seitas ultra-esquerdistas pseudomarxistas também desempenharam um papel lamentável e foram incapazes de oferecer uma alternativa aos trabalhadores e aos oficiais radicalizados que, na realidade, a estavam procurando.

A Crise do Capitalismo

A causa destes acontecimentos é a crise geral orgânica do capitalismo em escala mundial. Há quase trinta anos, Ted Grant escrevia:

“Um dos fatores básicos do desenvolvimento da revolução é a desmoralização da própria classe dominante. Atualmente, nos países decisivos do capitalismo, apareceram fissuras e divisões no seio da classe dominante. Olham com terror os processos que ocorrem na Europa e no resto do mundo. O estado capitalista mais poderoso de todos, os EUA, que pensavam ter à frente um século de dominação mundial, que se sentiam como a polícia dos países coloniais e capitalistas, está tão desmoralizado quanto os outros”.

Estas linhas são perfeitamente aplicáveis à situação atual.

A situação mundial caracteriza-se pela turbulência geral. Desde 1974, acumularam-se profundas contradições. Este é certamente um período de insurreições, de mudanças profundas e de giros repentinos em todos os continentes e países. Os capitalistas têm muitas dificuldades para tirar o mundo da recessão. Somente os EUA experimentarm um pouco de crescimento, mas o mesmo é extremamente frágil e se baseia no consumo, no crédito e no endividamento sem precedentes.

Em escala mundial, o sistema capitalista encontra-se numa crise profunda. Há muitos sintomas – guerras, terrorismo, instabilidade social, política e diplomática –, mas são sintomas da crise central. Os apologistas do capital tentam apresentar esta crise como conjuntural, como um pequeno ajuste ou uma “correção”. Mas não é assim. As convulsões que vemos em todas as partes são o reflexo do beco sem saída em que se encontra o capitalismo. No fundo, é a expressão da rebelião das forças produtivas contra as barreiras gêmeas da propriedade privada e do estado nacional.

A crise se expressa com uma força especial nos antigos países coloniais da Ásia, África e América Latina. Todos estão experimentando convulsões sem precedentes, econômicas, financeiras, sociais e políticas. Não há um só regime burguês estável em toda a América Latina.

Se existissem poderosos partidos marxistas de massas, os trabalhadores da Argentina, Bolívia, Peru, Equador, poderiam ter tomado facilmente o poder durante o último período. Mas estes partidos não existem. À degeneração da II e III Internacionais, devemos acrescentar a incapacidade total dessas organizações sectárias que pretendem reivindicar a bandeira do trotskismo, que cometeram todos os tipos de erros, tanto de caráter oportunista como ultra-esquerdista e que, há tempos, deixaram de merecer o direito de serem considerados seriamente como uma força revolucionária.

Na ausência de um partido marxista forte, era inevitável que a revolução nos países capitalistas subdesenvolvidos se manifestasse através de todo tipo de formas peculiares. Este é o resultado do atraso da revolução socialista nos países capitalistas desenvolvidos. Os trabalhadores e os camponeses da Ásia, África e América Latina não podem esperar. Necessitam encontrar uma solução, agora, para seus mais dramáticos problemas. E, se não existe um partido marxista à mão, procurarão alguma alternativa. Simplesmente, não existe como contraargumentar a esta lógica.

Na sua teoria da revolução permanente, Trotsky explica que, nas condições modernas, as tarefas da revolução democrático-burguesa não podem ser realizadas sem a expropriação da burguesia. A única forma de salvar a sociedade do estancamento, da fome e da miséria é abolindo o latifundismo e o capitalismo. A impossibilidade de desenvolver plenamente as forças produtivas sob o capitalismo-latifundismo foi o que impulsionou a revolução colonial. Através da via capitalista não há saída.

Na ausência de um partido marxista podem-se erguer outras forças. Vimos isso em Portugal, em 1974-75, quando um grupo de oficiais radicalizados do exército derrubou o ditador fascista Caetano e abriu as comportas da revolução. Em seu artigo, já citado, Ted Grant diz o seguinte:

“Conseqüentemente, com o desenvolvimento das forças produtivas, topa-se com o estorvo do capitalismo e das grandes empresas, que estão subordinados e são colaboradores do imperialismo, então esses estorvos são varridos para o lado. Como se fosse uma versão deformada da revolução permanente, esta casta mais baixa de oficiais converte-se – durante um período – no agente inconsciente da história para levar adiante as tarefas necessárias da estatização da economia”.

Esta afirmação, é claro, atinge o ponto central da idéia que determinados grupos “marxistas” converteram num preconceito, algo como a Arca do Contrato dos judeus ortodoxos ou a doutrina da infabilidade do papa dos católicos devotos, isto é, que os oficiais do exército são inexoravelmente reacionários e que todos os golpes militares são de direita. Se partirmos dessas proposições simples, então deveríamos condenar de antemão, não somente Chávez, mas também os líderes da revolução portuguesa. Mas a história não é tão simples assim, para se ajustar a padrões ordenados. Todavia, recorrendo a um velho refrão inglês, as mentes simples gostam das coisas simples.

A revolução portuguesa foi muito longe. The Times de Londres inclusive publicou um editorial intitulado: O capitalismo em Portugal está morto. Isto podia ter ocorrido. Sob a pressão da classe trabalhadora, o Movimento das Forças Armadas nacionalizou os bancos e as companhias de seguros, o que, na prática, supunha a nacionalização de 80% da economia. Desgraçadamente, as conquistas da revolução foram debilitadas pelos dirigentes dos partidos comunista e socialista e se perdeu a oportunidade.

Agora, vemos um processo semelhante na Venezuela. Durante gerações, a população venezuelana tem sido mal governada pelos partidos burgueses que representavam os interesses da oligarquia e do imperialismo. Depois, em 1996, encontraram uma alternativa na forma de um novo movimento político – o Movimento Bolivariano formado por Hugo Chávez. O programa de Chávez era modesto: contra a corrupção, reformas etc. Mas, imediatamente, entrou em conflito com a oligarquia e o imperialismo.

O que estamos presenciando na Venezuela é uma variante particular da teoria da revolução permanente. É impossível consolidar as conquistas da revolução dentro dos limites do sistema capitalista. Cedo ou tarde, ter-se-á de escolher: ou a revolução liqüida o poder econômico da oligarquia, expropria os banqueiros e os capitalistas e empreende o caminho ao socialismo; ou a oligarquia e o imperialismo liqüidarão a revolução.

Chávez e as Massas

Numa situação em que a velha ordem se encontra numa crise profunda, quando, claramente, não há saída senão através de uma mudança fundamental, mas onde não existe um partido revolucionário de massas, é possível todo tipo de variantes peculiares. Nestas circunstâncias, a fermentação revolucionária pode levar a situações inesperadas. Já assinalamos que caracterizar Chávez como burguês é sociologicamente inexato. Mas, mesmo que fosse certo, isso não descartaria automaticamente a evolução na direção da revolução socialista e de uma política proletária. Devemos recorrer uma vez mais ao fundador do socialismo científico para que nos ajude. Marx escreve o seguinte:

“Finalmente, naqueles períodos em que a luta de classes está no ponto de se decidir, é tão violento e tão claro o processo de desintegração latente da classe governante, no seio da sociedade antiga, que uma pequena parte da classe dominante se desliga desta e abraça a causa revolucionária, passando para o lado da classe que tem em suas mãos o futuro. Assim, tal como antes uma parte da nobreza se passou à burguesia, agora uma parte da burguesia se passa para o campo do proletariado; neste trânsito, lideram a marcha uma parte dos ideólogos burgueses que conseguiram elevar-se a um entendimento teórico de todo o movimento histórico”. (Marx e Engels, O Manifesto Comunista).

Com que clareza Marx se expressava! Para alguém que realmente absorveu o método de Marx e que se opõe a repetir mecanicamente alguns clichês mal assimilados, o que está ocorrendo na Venezuela não representa uma grande dificuldade. Não é a primeira vez que presenciamos um fenômeno semelhante. Há alguns dias publicamos em nossa web um artigo de Ted Grant, A Revolução Ibérica. O Marxismo e o Desenvolvimento da Situação Internacional, escrito em maio de 1975. Começa com as seguintes palavras:

“O marxismo seria uma teoria muito simples se a única coisa necessária fosse a de repetir servilmente as idéias do passado. Os sectários e os oportunistas de todas as camarilhas e seitas diferentes ignoram os métodos e princípios que conservam sua validade, e que se podem extrair lições incalculáveis das obras dos grandes mestres. Eles repetem umas quantas frases recolhidas do passado e pensam que isso os converte em brilhantes estrategistas. As obras de Marx, Engels, Lenine e Trotsky são uma herança preciosa e devemos animar aos jovens companheiros a estudá-las com freqüência. Mas não proporcionam projetos elaborados para o processo da história”.

A prova decisiva para os revolucionários é a sua atitude diante da revolução. As seitas pseudotrotskistas foram totalmente incapazes de se orientarem e se reorientarem ante o desenvolvimento dos acontecimentos. Não compreendem que, sem um partido marxista, é possível todo tipo de coisas. Como disse, corretamente, Ted Grant sobre estas supostas camarilhas “trotskistas”: “Converteram-se em alguma coisa cada vez mais distante, sem a menor possibilidade de se converterem numa organização de massas da classe trabalhadora”.

Na história, a relação entre os fatores objetivo e subjetivo é altamente complexa e contraditória. Unicamente o método dialético pode nos ajudar a desembaraçar as contradições da situação na Venezuela. Na ausência de uma genuína corrente marxista é inevitável que apareçam outras tendências. E, na medida em que a classe trabalhadora não tem a direção, outras classes fazem-se notar. Realmente, isto não é tão difícil de compreender!

A relação entre Hugo Chávez e as massas é muito complexa e dialética. Tive ocasião de ver isto por mim mesmo, quando assisti a um comício de massas em 12 de abril no centro de Caracas. Não é um julgamento equivocado o enorme entusiamo e devoção que as massas demonstravam. Mas o segredo disso não se encontra na personalidade de Chávez, e sim nas relações de classe. As massas vêem em Chávez seu reflexo. Identificam-se com ele, consideram-no o homem que as despertou para a vida política e que deu voz as suas aspirações. A revolução está personificada nele. Para as massas, Hugo Chávez e a revolução são a mesma coisa.

Com certeza, uma coisa é a percepção das massas e outra é a lógica objetiva dos acontecimentos. Numa revolução, os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade vertiginosa e a direção tem dificuldades para acompanhar seu frenético ritmo. O pêndulo gira continuamente para a esquerda durante todo um período. Todos os partidos, tendências, programas e indivíduos são postos à prova. Por isso, o progresso da revolução está marcado pela ascensão e queda dos dirigentes e dos partidos, em que as tendências mais radicais têm de afastar aos elementos mais moderados.

O Chicote da Contra-revolução

As massas não vão à revolução com um plano preparado de reconstrução nacional, e sim com um profundo sentimento de que não podem mais suportar o antigo regime. As primeiras etapas da revolução estão, inevitavelmente, caracterizadas por uma visão confusa e incoerente. Existe um sentimento de euforia, de triunfo e de avanço irresistível. Isto vai acompanhado pela idéia de unidade, de que “estamos todos juntos” numa espécie de marcha universal para a liberdade e justiça social.

Contudo, isto é uma ilusão. A revolução choca-se inevitavelmente com as barreiras da ordem social e institucional existente. Isto provoca enfrentamentos. Cada ação provoca uma reação igual, mas em sentido contrário – esta lei é igualmente verdadeira para as revoluções e para a mecânica elementar. A vitória de Chávez não significou uma revolução social, mas alterou totalmente a ordem social e criou uma fermentação social generalizada. A oligarquia, consciente de que não poderia subornar ou pressionar a Chávez, decidiu eliminá-lo pela força. Isto levou diretamente ao golpe contra-revolucionário de 11 de abril de 2002.

Exatamente há dois anos as forças contra-revolucionárias da oligarquia venezuelana prepararam um golpe de estado com o apoio dos oficiais de direita do exército. Chávez foi preso e proclamou-se uma “ditadura democrática”. Mas as massas se levantaram com seus braços nus e derrubaram o governo reacionário, preparando o caminho para um novo avanço da revolução. Uma vez mais as massas se uniram ao setor revolucionário do exército. A reação entrou em colapso em quarenta e oito horas como um castelo de naipes.

Marx disse que a revolução necessita, para avançar, do chicote da contra-revolução. Na Venezuela, cada tentativa contra-revolucionária serviu para provocar um colossal movimento das massas que arrastou tudo na sua passagem. Em cada ocasião, o ambiente das massas endureceu, fez-se mais decidido e militante. A exigência de uma ação decisiva para acabar com os contra-revolucionários é cada vez mais alta e insistente.: “mãos duras!” é o que dizem desde baixo.

Depois da derrota do golpe teria sido possível concluir a revolução de uma forma tranqüila e incruenta. Desgraçadamente, a oportunidade se perdeu e os reacionários puderam reagrupar-se e organizar uma nova tentativa com a chamada “greve” (na realidade, um lockout patronal) que provocou um sério dano à economia. A nova tentativa foi derrotada pelos trabalhadores, que tomaram o controle das fábricas e das instalações petrolíferas, afugentando os reacionários. Novamente, existia a possibilidade de uma transformação radical sem uma guerra civil. Outra vez, se perdeu a oportunidade.

A situação agora está completamente polarizada entre direita e esquerda. Abriu-se um abismo intransponivel entre classes antagônicas: ricos e pobres, chavistas e escuálidos, revolucionários e contra-revolucionários, enfrentados entre si num estado de hostilidade permanente. A sociedade vive numa situação de alarme e agitação constantes. O ar está saturado de rumores de golpes, conspirações, agressão externa. A atmosfera está eletrizada, como antes de uma tormenta. Cedo ou tarde a tormenta deve se desencadear.

As massas aprendem rapidamente na escola da revolução. Estão tirando conclusões. A principal conclusão é que o processo revolucionário deve seguir adiante, deve enfrentar seus inimigos e eliminar todos os obstáculos. Este desejo ardente das massas, entretanto, enfrenta-se com a resistência dos elementos conservadores e reformistas que constantemente pedem cautela e que, na prática, querem por freios à revolução. O destino da revolução depende da solução desta contradição.

A Revolução está em Perigo

A revolução venezuelana enfrenta, agora, uma dura disjuntiva. A revolução está rodeada de inimigos, interna e externamente, que tentam acabar com ela. Para derrotar as forças da contra-revolução são necessários um programa e uma política dotados de claridade. Isto só pode ser proporcionado por uma tendência marxista.

A revolução venezuelana encontra-se, agora, numa encruzilhada. As massas derrotaram a reação em três ocasiões durante os últimos dois anos. Mas as forças da reação não foram totalmente derrotadas. A oligarquia continua controlando os pontos chave da economia e está continuamente intrigando contra a revolução. Washington participa ativamente nestas intrigas contra-revolucionárias. Bush declarou que não descansará até ver a queda de Chávez. Recentemente, um general estadunidense disse publicamente que a Venezuela representa uma ameaça para os EUA. Todos estes são sinais de perigo.

O imperialismo estadunidense está empantanado no Iraque. Tal fato torna difícil, no momento, uma intervenção militar direta na Venezuela, inclusive na mesma escala de sua aventura haitiana. Mas há muitas outras opiniões. Estão tentando que a Organização dos Estados Americanos (OEA) organize um bloqueio contra a Venezuela, nas mesmas linhas do bloqueio à Cuba. Até agora não conseguiram. Mas, no momento, a ameaça mais urgente procede da vizinha Colômbia.

O imperialismo quer utilizar a Colômbia como uma base para suas operações na América Latina. Com o pretexto da “guerra contra as drogas”, Washington enviou armas, dinheiro e “assessores militares” à Colômbia. Tal fato alterou totalmente o equilíbrio militar da região. O monstruoso Plano Colômbia é um disfarce para cobrir uma intervenção imperialista em escala massiva. Representa uma grave ameaça para a revolução venezuelana. Um pouco antes de ser jogado fora pela população espanhola, Aznar enviou um carregamento de tanques para a Colômbia. Estes tanques são pouco úteis para a luta anti-guerrilheira, de forma que só se pode dar lugar a uma interpretação: os tanques são para ser utilizados contra o país vizinho. O nome desse país é Venezuela.

Nos últimos meses apareceram evidências da intensificação das atividades dos grupos paramilitares de direita colombianos em solo venezuelano. Estes grupos formam os famosos esquadrões da morte fascistas que, durante décadas, assassinaram, torturaram e aterrorizaram a população, com o apoio encoberto do estado e das forças armadas colombianas. Agora estão atuando como mercenários a soldo da CIA. Seu objetivo é o assassinato de Chávez e a organização de provocações violentas, para justificar um conflito armado entre a Venezuela e a Colômbia.

Em artigos anteriores explicamos que o imperialismo estadunidense se está preparando para organizar alguma provocação na fronteira com a Colômbia. Depois do ignominioso colapso de sua campanha pelo referendo, a oposição interna está desorganizada, dividindo-se em suas partes componentes, acusando-se mutuamente de planejar outro golpe e outras coisa pelo estilo. A revolução está em perigo. Mas, como ocorreu na Grande Revolução Francesa do século XVIII, e hoje ocorre na Venezuela, a ameaça externa pode servir para aprofundar a revolução.

Correlação de Forças de Classe

A correlação de forças de classe dentro da Venezuela ainda é extremamente favorável para se levar a cabo uma revolução proletária clássica. O que faz falta é uma aplicação enérgica da política da frente única. Mas isto não significa a dissolução do movimento dos trabalhadores ou a dissolução da ala marxista numa “frente popular” em geral. Isso significa somente que a classe operária e sua vanguarda têm o dever de chegar a um acordo de luta com a pequena burguesia revolucionária, os camponeses pobres, os pobres urbanos e todos os outros elementos revolucionários da população, para levar a cabo a luta contra o imperialismo e a oligarquia.

Está esta política em contradição com o objetivo de uma revolução socialista? Somente um doutrinário desesperado pode responder afirmativamente, confirmando que não tem a menor idéia do que é uma revolução socialista. Vamos remeter-nos a Lenine nesta questão:

“A revolução socialista não é um ato único, nem uma batalha numa frente isolada, e sim toda uma época de agudos conflitos de classes, uma longa série de batalhas em todas as frentes, ou seja, em todos os problemas da economia e da política, batalhas que somente podem culminar com a expropriação da burguesia. Seria completamente errôneo pensar que a luta pela democracia pode desviar o proletariado da revolução socialista, ou relegá-la, adiá-la etc. Pelo contrário, assim como é impossível um socialismo vitorioso que não realize a democracia total, também não se pode preparar para a vitória um proletariado que não aceite uma luta revolucionária geral e conseqüente pela democracia”. (Lenine, A Revolução Socialista e o Direito das Nações à Autodeterminação. Janeiro-fevereiro 1916).

Que significam estas linhas? A revolução socialista é impensável sem a luta cotidiana pela melhoria da situação da classe trabalhadora e das massas exploradas. Somente através dessa luta pode o proletariado acumular e reunir a força de massas necessária, para levar adiante a transformação socialista da sociedade. Isto inclui não somente a luta por salários mais altos, a redução da jornada de trabalho, mais moradias, hospitais e escolas etc., como também a luta pela democracia. No curso desta luta, a classe operária tem a oportunidade de conquistar a direção e de se por à cabeça da nação. Sem isso, nada será possível nem em mil anos.

Na Venezuela, o segredo do êxito é a unidade militante do proletariado socialista com a democracia revolucionária – os camponeses pobres, os pobres urbanos e a pequena burguesia revolucionária em geral. Os inimigos da revolução tentam constantemente romper esta unidade. Os marxistas lutam por mantê-la. Mas isto não significa que devamos aceitar a direção da pequena burguesia ou esconder nossas diferenças com ela. Para utilizar uma expressão espanhola: “juntos pero no revueltos” (juntos mas não misturados).

O Movimento Bolivariano não é um partido estalinista monolítico; trata-se, essencialmente, de um movimento amplo de massas onde há diferentes tendências e correntes. A ala de esquerda, refletindo as aspirações revolucionárias das massas, tenta levar adiante a revolução, superar a resistência da oligarquia e armar ao povo. A ala direita (reformistas e social-democratas), na prática, desejam colocar um freio à revolução, ou, no mínimo, debilitá-la e conduzir a um acordo com a oligarquia e o imperialismo.

Na realidade, a segunda opção da ala direitista não existe. Não há compromisso possível com os inimigos da revolução, da mesma forma em que não se podem misturar azeite e água. A lógica da situação move-se na direção de um enfrentamento aberto entre as classes. Da resolução deste conflito depende o destino da revolução.

Que atitude deveriam adotar os marxistas diante desta situação concreta? Deveríamos manter-nos afastados, argumentando que, como a revolução é “burguesa”, então, nada temos a ver com ela? Mas isto equivaleria a nos mantermos neutros na luta entre a revolução e a contra-revolução. Esta posição seria uma traição à revolução e à classe trabalhadora. Esta posição desacreditaria a qualquer grupo ou partido que a defenda. Deveriam ser considerados – com toda a justiça – desertores e traidores.

Àqueles que, constantemente, nos recordam que os marxistas e a classe trabalhadora devem manter sua independência, respondemos: vocês estão nos lembrando o ABC do marxismo. Agradecemos por isso; mas também gostaríamos de dizer que, depois do ABC, há outras letras no alfabeto. É necessário, com certeza, que o proletariado mantenha sua independência de classe em todos os momentos e em quaisquer circunstâncias. Por isso, dizemos aos trabalhadores da Venezuela que construam e fortaleçam suas organizações de classe – sindicatos, comitês de fábrica, controle operário etc.

O mesmo princípio básico é válido para uma tendência marxista. Somos favoráveis à colaboração com outras tendências do movimento revolucionário, com a condição prévia de não se misturarem bandeiras, programas ou idéias. A todo momento devemos manter as idéias, a política e o programa do marxismo, e lutar por eles dentro do movimento. Ou seja, a única posição correta é a seguinte:

1. Defesa incondicional da revolução venezuelana contra a oligarquia e o imperialismo;

2. Apoio crítico à democracia revolucionária e a Hugo Chávez contra a oligarquia e o imperialismo;

3. Dentro do movimento de massas geral (o Movimento Bolivariano), apoiamos a ala esquerda frente aos reformistas e social-democratas;

4. Dentro da ala esquerda, os marxistas defenderão suas idéias, política e programa, e lutarão para ganhar a maioria com o trabalho e a superioridade de nossas idéias;

5. Dentro do movimento, lutar para a construção de organizações do proletariado fortes e independentes e estender sua influência, começando pelos sindicatos.

A Necessidade de um Partido Marxista

“Devemos construir um partido! Devemos construir um partido!” é o que repetem os sectários como se fossem papagaios. Mas, quando os marxistas venezuelanos perguntamos como exatamente se construirá o partido, os papagaios guardam repentino silêncio. “Como? Declarando isso, é claro!” Isto é bastante assombroso. Três homens e um cachorrinho (ou um papagaio bêbado) reúnem-se em um café de Caracas e proclamam o partido revolucionário. Tudo bem. E depois? “Diremos as massas que se unam a nós!” Excelente. E se as massas não se unem a vocês e preferem manter-se dentro das organizações bolivarianas? “Problema delas!”

Estas pessoas tremendamente “inteligentes”, que imaginam que a participação dos marxistas no movimento bolivariano representa um abandono da luta por um partido marxista revolucionário, simplesmente mostram que não têm a menor idéia de como se constrói tal partido, nem na Venezuela nem em nenhum outro país. A participação dos marxistas no movimento bolivariano é uma idéia em que não há um átomo sequer de liquidacionismo ou oportunismo, e sim a aplicação dos genuínos métodos de Marx, Engels, Lenine e Trotsky. Citaremos passagens do documento fundacional de nosso movimento, O Manifesto Comunista. No capítulo intitulado Proletários e Comunistas podemos ler o seguinte:

“Em que relação se encontram os comunistas com os proletários em geral?

Os comunistas não são nenhum partido particular face aos outros partidos operários.

Não têm nenhuns interesses separados dos interesses de todo o proletariado.

Não estabelecem nenhuns princípios particulares segundo os quais queiram moldar o movimento proletário.

Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo fato de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes de nacionalidade, de todo o proletariado, e pelo fato de que, por outro lado, nos diversos estágios de desenvolvimento por que a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total.

Os comunistas são, pois, na prática, o setor mais decidido, sempre impulsionador, dos partidos operários de todos os países; na teoria, eles têm, sobre a restante massa do proletariado, a vantagem da clara visão das condições, do curso e dos resultados gerais do movimento proletário”. (Marx e Engels, O Manifesto Comunista).

Poder-se-ia pensar que está suficientemente claro até para uma criança com uma inteligência média. Desgraçadamente, há alguns marxistas “inteligentes” que não possuem este nível de inteligência. Depois de ter lido com atenção os escritos de alguns autodenominados marxistas, Karl Marx protestou e disse que, se isso era marxismo, então ele não era marxista. Agora compreendemos como deve ter se sentido. Mas Marx, Engels, Lenine e Trotsky realmente não têm a culpa das estupidezes que se escreveram em seus nomes, da mesma forma que não se pode culpar a Jesus Cristo pelos atos dos bispos venezuelanos.

A lógica desta situação já foi descrita há muito tempo por Shakespeare em sua obra Henrique IV, quando Welshman Owain Glyndower, um homem com muita coragem, mas com tendências místicas, tenta convencer ao impulsivo inglês de seus poderes mágicos:

“G: Invoco espíritos do profundo abismo.

H: Eu também e qualquer um outro. Mas, eles vêm quando os chamais?”

A proposição de que é possível construir um partido revolucionário sério na Venezuela fora do movimento de massas não merece ser levada a sério. Preferimos basear-nos nos métodos elaborados por Marx e Engels há mais de cento e cinquenta anos, métodos que, como todas as idéias fundamentais do marxismo, mantêm hoje toda sua validade. É absolutamente necessário unir as forças do marxismo com o movimento de massas.

A classe operária, em todo momento, deve preservar e construir suas próprias organizações de classe, seus sindicatos, comitês de fábrica etc. Ao mesmo tempo, trabalhará para construir um movimento de massas que envolva as camadas mais amplas das massas não proletárias e semi-proletárias. A ala marxista do movimento manterá sua total independência política, seus próprios jornais, revistas, livros e panfletos, e terá plena liberdade para defender seus pontos de vista. Trabalhará lealmente para construir o movimento e arrastar as camadas mais amplas de trabalhadores e jovens, e, ao mesmo tempo, lutará para ganhar os elementos mais avançados para seu programa, política e idéias.

Não procuramos nos impor sobre o movimento. Não lhe apresentamos ultimatos. Nosso objetivo é o de construi-lo, fortalecê-lo e empurrá-lo para a frente e, ao mesmo tempo, armar a camada dirigente com as idéias, o programa e a política necessários, que possam levar à derrota da oligarquia e do imperialismo, e limpar o caminho para a transformação socialista da sociedade. Como explica Lenine, uma luta consistente pela democracia inevitavelmente levará à expropriação da oligarquia e à transformação da revolução democrática em revolução socialista.

Atualmente, pode ser que esta idéia seja minoritária. Isso não nos preocupa. Aceitaremos que estamos em minoria e atuaremos em conseqüência. Mas continuaremos defendendo a expropriação da oligarquia e o armamento das massas, como a única garantia de salvação da revolução, e os acontecimentos nos darão razão. Defenderemos nossas idéias e convidamos a todas as demais tendências a que façam o mesmo. Somente os estalinistas e os burocratas temem um debate aberto. Os marxistas e os democratas revolucionários honestos, não.

Baseamos-nos firmemente no movimento das massas revolucionárias. Sobre a base de sua experiência as massas aprenderão a correção de nossas idéias, palavras de ordem e programa. Este é o único caminho para o êxito! Deixaremos a palavra final para esse grande marxista e extraordinário teórico, Ted Grant, que escreveu o seguinte sobre as organizações de massas:

“Dentro de suas fileiras, entre os lutadores da classe trabalhadora, sairão as forças do marxismo leninismo. Fora das organizações de massas, não se criará nada que possa resistir à força do tempo”.